Editorial – vol. 8 n. 1

O espelho, como reflexo silencioso da imagem, pode ser visto na arte verbal e plástica. Também pode ser vista a arte verbal funcionando como espelho, função essa chamada por Gandelman (1980) de papier-miroir. Abona-se aquele autor em obras de Proust e Kafka, aproximando-as do desenho e estudando a proximidade da letra e suas metamorfoses em imagens, de suas metamorfoses em corpos desenhados.

Reforça a proposta de Gandelman o dizer de “Hommens regardez – vous dans le papier!”. Segundo ele, letra do papel metamorfoseia-se em imagens silenciosas do corpo; o corpo, em fisionomia; a fisionomia do texto naquela do próprio escritor, uma vez que um escritor que se propõe a re-apresentar o mundo com suas paisagens, personagens, sociedade acaba por descobrir em cada palavra, frase, traço, linha, a sua própria fisionomia, o seu visage.

Outra ponderação de Gandelman a ser considerada é a relação Moi, Je, Miroir. Assim sendo, vê-se que o moi que não é o je; o Moi, para construir-se, tem a necessidade de transformar o papel projetado em miroir, fazendo com que o escritor se espelhe em suas palavras que se tornam imagens. Pelo visto, o olhar no texto, que já pode ser visto como espelho, torna-se tátil, e cria uma dimensão ótica-tátil, pictural-verbal ou verbal-pictural. Assim sendo, o mundo silencioso de Beethoven torna-se um miroir pelas suas notas musicais; os retratos de Van Gogh tornam-se um espelho silencioso pelas suas pinceladas; e Graciliano Ramos em “Vidas Secas” constrói um ritmo sonoro através do silêncio do texto. E a nação brasileira também constrói o seu miroir através do grito silencioso da sua arte: a “Mulher que Chora Pedra” em Portinari.

Nelyse Salzedas
Editora Científica da Revista Poéticas Visuais. Líder do Grupo de Pesquisa Texto e Imagem do CNPq

 

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