Os novos ambientes e as crises espaciais

Ricardo Nicola

Derrick de Kerchkove propõe e revisita nesta obra, publicada em 2001, pela Birkhäuser – Editora para Arquitetos, Suíça, um estudo aprofundado do impacto tecnológico nas condições do espaço da natureza ciberespacial. Originalmente fora publicada, no mesmo ano, pela editora italiana Texto e Immagine, de Turin.

Extrapolando a especificidade do tema e do público leitor, na obra, esse “impacto” não fica apenas restrito à compreensão do fenômeno, mas também o amplia na direção da reconstrução do próprio conceito e seus desdobramentos.

Com a assistência editorial de vários pesquisadores do Programa McLuhan em Cultura e Tecnologia, da Universidade de Toronto, do qual De Kerckhove foi diretor por 25 anos, The Architecture of Intelligente – The Information Technology Revolution in Architecture (A Arquitetura da Inteligência – A Revolução Informacional na Arquitetura)desvela a natureza dos processos híbridos na conceituação espacial da escrita, da simetria, da visão, e da própria forma como olhamos e/ou contemplamos os objetos e sujeitos espaciais em todas as suas dimensões, desmistificando a verticalidade e a horizontalidade do mundo a nossa volta.

Apresentado pelo Senior McLuhan Fellow, Antonino Saggio, este trabalho destaca-se como uma das mais importantes contribuições de De Kerchkhove ao mundo da cibercultura. Embora não tenha sido publicado ainda em português, é sabido que o Grupo Atopós, através da coordenação de Massimo di Felice, da Universidade de São Paulo (USP-São Paulo), um dos Senior McLuhan Fellow aqui no Brasil, tem se debruçado – ele e sua equipe– sobre essa tarefa e prevê-se sua publicação no país em breve, o que representa uma importante iniciativa acadêmica. É bom lembrar que uma edição brasileira de outra famosa obra de De Kerckhove, A Pele da Cultura, teve pelo mesmo grupo uma reedição primorosa em português, em 2009.

Em Arquitetura da Inteligência, os vários temas, que entrecruzam a concepção atemporal da espacialização, são reconstruídos por De Kerckhove em itens que vão da Invenção do Espaço, da sua fisicalidade, psicologicidade, e mentalidade, para nos mostrar as raízes dos princípios que norteam a chamada “arquitetura conectada”, que segundo o autor se assenta no triplé “a mente, o mundo e as redes”. Compreendendo como ambientes informacionais, Kerckhove desvenda e rediscute as reformatações desses ambientes, revisitando algumas das bases conceituais mcluhaniana nas quais a própria obra de arte pode ser pensada, repensada, revisitada e, até mesmo, redimensionada.

Seus ambientes confrontam plataformas que hibridizam o modus operandi da produção artística, exigindo de nós, da academia, e/ou especialistas ou não, uma nova contemplação das nuances fronteiriças das matrizes da arte. Arquitetura da Inteligência é um livro que sem dúvida alguma deve constar de nossos estudos, pois como aventa Saggio, citando a metáfora do autor, “tal qual a metáfora do Derrick sobre o peixe, que dentro do seu aquário, concebe seu espaço como o fluido que o cerca, contudo algo exige deste habitante em dar um ‘pulo’ para fora do líquido, para conhecer outras realidades, que se não é visitada, ou vivida, não o é conhecida”. Fica para nós, o recado, e Arquitetura da Inteligência o faz com maestria.

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